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terça-feira, abril 21, 2009

Uma palavra sobre a morte

Como muitas pessoas , também, por vezes, busco encaminhar para meus contatos algum “repasse” que circula na internet: que vejo interessante, instrutivo ou mesmo engraçado.
Assim, algum tempo passado inclui na lista um conhecido e lá se foi mais um vídeo, que escolhi compartilhar: um vídeo espetacular! Do mesmo, veio-me uma resposta a qual informava sobre o falecimento do pai, e, que o vídeo havia servido de muito conforto para a angústia que ele estava vivendo.
É perceptível – diria até admirável - que das mais variadas formas podem acontecer um momento de acalento, produzido por nós mesmos: simples mortais.
E a morte, principalmente dos próximos, deixa para aquele que fica muitas necessidades. Necessidades como: receber acalento, superar a dor na alma, aceitar a chegada do fim, continuar vivendo etc.
Ao encontrar esse texto – “uma palavra sobre a morte” - dessa vez resolvi não compartilhar com os meus contatos pessoais, por e-mail, mas, sim compartilhar aqui; porque entendo que mensagens assim geralmente são lidas, mais, por uma questão de necessidade... O que, aliás, é uma pena!
Paz e bem!
Sandra Valeriote
***
Uma palavra sobre a morte
Não é sempre que se consegue pensar com serenidade sobre a morte. Gostaria de expressar algumas idéias que me vieram, sobretudo, de um dia de peregrinação, quando estive só... Pensar na morte é como o choro que deve brotar espontaneamente. A primeira realidade que confesso é exatamente esta: neste dia chorei. Não era tristeza, não era desespero, mas algo que emergia, que borbulhava e copiosamente transformou-se em lágrimas.
O sentimento? Um misto de espanto, de perguntas sem respostas, de alívio, de satisfação, de liberdade de ser exatamente aquilo que somos: vulneráveis. O primeiro desejo de escrever talvez seja meio egoísta, por isso quero confessá-lo logo: não me conformo com aquilo que chamo de hipocrisia (talvez seja dura demais esta palavra, ou esta forma de falar, mas não encontro outra melhor) com a qual vejo a morte ser tratada. Detestaria escutar (evidentemente não será possível!) algo semelhante no meu funeral.
Neste sentido, este escrito pode ser um egoísta pedido de ajuda: leiam, reflitam e digam um pouco do que penso sobre a morte! Talvez seja pretensão demais preparar o “discurso fúnebre”. Em todo caso, também isto me leva a escrever. Tenho descoberto que o mais angustiante da morte não é exatamente sua realidade, aparentemente cruel, mas as perguntas que ela coloca sobre a crueldade da vida. Sim, a morte tem interrogado minha vida. Morte é solução para muitos problemas insolúveis: acaba com a falta de tempo, que alego para levar uma vida tão corrida; acaba com o excesso de trabalho, que não me deixa fazer outra coisa a não ser estar sempre atrasado; acaba com as dores, com a necessidade de dormir, de tomar remédios, de caminhar, de falar, de rezar, de alimentar-me, de perdoar, de pedir perdão, de ponderar, de medir com largueza, de superar-me... Enfim a morte acaba com muitos empecilhos, mas por isso mesmo é angustiante: ela questiona-me sobre a vida. Meus valores, minhas atitudes, minhas opções.
Meu viver torna detestável ou agradável o momento da morte. Não quero chegar ao fim da vida como herói. Acredito que lutarei até o último momento, espero que na angústia encontre a porta estreita e que esteja suficientemente pequeno, com pouquíssima bagagem, para não ter que esforçar-me demasiadamente. Neste sentido, rezo para que não antecipe minha hora por leviandade, não relute contra o momento decisivo. Gosto de pedir, na oração da noite: “Uma noite tranqüila e no fim da vida uma morte santa”. Quando estou muito feliz (o que não é tão raro assim) acrescento “que no fim da vida, que seja bem no finzinho mesmo, bem velhinho, Deus me conceda uma morte santa!”.
Falo disto, no entanto confesso que fujo desta realidade de muitas formas. Em alguns dias em que pude pensar serenamente, concluí algumas questões: não posso negar as realidades que me marcam. Meu pai e minha mãe morreram subitamente. Foi um susto, e ainda hoje é, pensar que um dia tinha pai, outro não; um dia tinha mãe, outro não. Um padre amigo, de feliz memória (visto que também este já morreu) disse, quando questionado sobre a perda do irmão: “Não perdi não, ele morreu!”. Gostei particularmente da resposta, um tanto irônica, mas profundamente sábia. Devo descobrir que perco somente aquilo que penso ter, e que as pessoas, decididamente não perco, porque nunca as possuo. Mistério bonito este, não ter posse, não perder.
Pensar a morte é pensar o que valeu a vida. Neste tocante, anseio por alguém que seja capaz de não “discorrer” sobre as “grandes obras” que fiz em vida: “como era bom, como era zeloso..., vejam o que fez, isto e aquilo, como construía, como trabalhava, etc...” (pior ainda quando inventam coisas bonitas, sem real fundamento, desculpas para os males..., todos escutam por respeito e por educação, mas com um ar que deveria fazer corar os mais desavergonhados). O que são nossas virtudes, senão o próprio Deus coroando em nós seus dons?
De outro lado não vale colocar-se como juiz: “era assim… que gênio!, quem diria!, que coisas fez...”. Pois, se Deus justifica, quem somos nós para condenar? Gostaria simplesmente de chegar à morte e ser um testemunho de que o amor sempre vale a pena, dá sentido à vida, que o amor nunca perde, porque não é posse, mas desfrute, graça, liberdade.
A saudade, o desejo de comunhão é coisa santa, bonita, sagrada, não há que negar, não há que lutar contra, mas antes é preciso cultivar, guardar, ser agradecido por sentir. Espero, e creio que estou aprendendo, a viver a morte, a sofrer a ausência dos que morreram, a venerar a memória dos amores recebidos: o abraço de meu pai, uma das últimas imagens que guardo, o zelo e o olhar de minha mãe, o carinho demonstrado... Por isso vale a vida, por isso a morte foi vencida.
Gostaria que, diante do corpo inerte, que alguém dissesse: “olhem, que não ficou decepcionado, que sua esperança não ficou sem resposta, que o amor o acolhe, que a vida triunfa, que vale a pena acreditar naquilo que acreditou, celebrar aquilo que celebrou”. Sim, somente a celebração da eucaristia nos torna possível este momento, este toque sutil, quase que efêmero do céu, mas um toque que nunca nos deixa da mesma forma, nos transforma, nos dá o gosto da eternidade, que ainda buscamos enquanto peregrinamos por aqui.
O comprometedor desta realidade é que gesto a morte em vida. Cada dia que conto os anos, descubro que estou mais perto do débito. Os créditos vão se esgotando. Tenho pensado sobre a sensatez das contas, talvez seja melhor contar as graças e não os anos! Quem conta o tempo estará sempre em prejuízo, quem conta as graças fará não contas, mas cantos! Sim, o canto é exultação, ação de graças pelos benefícios recebidos. Por isso insisto que nos velórios se cante mais, se fale menos, sejamos capazes do silêncio... “Tudo o que cala, fala mais alto ao coração. Não existira som se não fosse o silêncio”.
Tenho propagado que gostaria de viver até os 97 anos, lúcido, capaz de peregrinar, ainda que com menos mochila, com passos mais lentos e com muito cuidado pra não tropeçar, acabar caindo e puft! Morrendo! Esse desejo é só para dizer: tenho descoberto a alegria do viver.
Creio no otimismo cristão: hoje melhor que ontem, amanhã melhor que hoje... Têm sido assim os anos que passo, as graças que vislumbro, das quais desfruto. As peregrinações têm me ajudado a viver assim. É certo que talvez morra subitamente, talvez não chegue aos quarenta, aos setenta e dois, aos oitenta, ou aos noventa e sete... Quem sabe, morro numa peregrinação e alguém diga: “aí, morreu de tanto andar!” Ou seja um consolo: “Pelo menos fazia o que gostava.!”. Talvez ninguém tenha lido isto, ninguém se lembre disto no momento de minha morte...
Mas vale desejar e simplesmente expressar hoje meu contentamento pela vida, pelas graças, pelo amor, ainda que marcado por tantos limites, dos quais, alguns, só a morte me livrará. Anseio por esta liberdade. Peregrinar torna fascinante a aventura sobre a terra, porque, por melhor que seja o caminho, ele está em vista também da chegada. A terra anseia pelo céu.
Pe. Ricardo
Deus nos abençoe!



2 comentários:

angeline disse...

Cara Sandra,
Ainda devo a vc uma resposta, ou um retorno, certo?
Mande seu e-mail, para contactá-la.
Antecipo que o logo desse blog está maravilhoso.
Angeline

sandra valeriote disse...

Oi Angel, tentei te enviar por e-mail, mas voltou :(
Eis:
s.valeriote@bol.com.br
Aguardo notícias!

Obrigada pela logo ;)